quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Valha-nos a Santa Mãe!

Estive de férias! Finalmente. Uns dias de “dolce fare niente” só eu e a esposa. Foi uma maravilha. Por isso estive tanto tempo ausente das lides talhantes...foi só forrobodó!
Desta vez não fizemos muito passeio, mas mesmo assim foi bom.

No ano passado demos uns passeios pela Beira Litoral, ver as vistas, os castelos, provar a gastronomia regional (que surpreendentemente cada vez mais é pizza), ver mais monumentos, sítios importantes e outros menos importantes. O que interessa é que em Portugal tudo é lindo. Excepto Setúbal. E Vila Velha de Rodão em certos dias também cheira mal. Mas vá...são bonitos de uma forma peculiar. Peculiarmente mal-cheirosos.

Grande parte do roteiro foi feito pelas nossas maravilhosas Estradas Nacionais.
Quem diz “Epá. Nacional? ‘Tás é parvo. Eu curto é andar na bisga nas auto-estradias, man.” é porque é muito urso (sem ofensa aos ursos que conheço alguns e não têm culpa nehuma) e merecia espetar-se contra um lancil, sair pelo vidro, ficar de rabo para o ar e ser penatrado violentamente por aquelas luzes azuis e estúpidas que irritam a vista e incomodam quem está na estrada para conduzir e não para competir.
Andar nas nossas nacionais é um deleite...e não, não vou fazer nenhuma piada com a palavra “deleite”.

Vemos o interior, vemos as nossas frondosas florestas (ou o chamuscado que resta de algumas delas), as serras, as fontes e o melhor de tudo, as nossas localidades mais, mais, mais interinas! E não, não vou fazer uma piada com a palavra “interina”, estava-se mesmo a ver.
Temos localidades lindas, que de sua simplicidade transmitem calma e serenidade, com gente boa que sabe responder a um “Bom dia” e a um “Boa tarde” (a um “Boa noite” fiquei sem saber pois também é gente de se deitar muito cedo), com casas rústicas e com o belo do tasco onde servem cerveja fresquinha sem o olhar de desconfiança habitual das pessoas das cidades.
Mas o melhor dessas localidades, caros leitores, são os seus nomes. Sem dúvida, Portugal é cheio de pérolas. Então alguns são mesmo nomes que levam o mais sério dos passageiros a esboçar um sorriso, senão mesmo a gargalhar até lhe virem as lágrimas aos olhos, soltar uma ou duas pinguinhas de urina para a cueca e de vez em quando largar um “flato”.

Eu sei que este é um assunto já focado vezes demais. “Pois. Olha outro a gozar com o nome das localidades.”, “Ó amigo, essa já é velha.”, “Usar vírgulas entre aspas fica esquisito, ó bacano.”...
Mas calma. Isto tudo foi só o build-up. A punchline vem agora, já na próxima frase.
Ou será o punchline? Bem. Não interessa.

Durante esse passeio, a esposa e eu passamos por Fátima, bonita localidade e lugar de culto para muito peregrino. Nós não somos muito devotos, mas gostamos de ver as vistas e aquilo do santuário até que está engraçado.
Mas o santuário de Fátima levou-me a pensar em muita coisa. Uma delas foi que nunca tinha visto tanta carrinha de venda de farturas por metro quadrado. Outra foi indagar sobre a própria aparição de Nossa Senhora.
Não estou a por em causa se ela apareceu mesmo frente à Lucy, à Jacy e ao Chico. Nem me interessa entrar nesse campo. Cada um acredita no que quer. Aparições de Nossa Senhora, o Benfica ganhar dois campeonatos seguidos, aumento das reformas...no que quiser.
A minha indagação é porque é que Nossa Senhora foi aparecer ali? Questões logísticas? Será que Ela já tinha em mente que ali ia ser um bom sítio para construir um santuário em Sua homenagem? Ou será que aqueles terrenos eram do interesse de terceiros que queriam em vende-los para tal efeito?

Isto levou-me a pensar “E se Nossa Senhora tivesse aparecido na Ota?” Pois é. Muito provavelmente agora discutir-se-ia a construção de um novo aeroporto em Fátima.
O pessoal que tem os terrenos na Ota é que não ia ficar muito contente.
“Ah, apareceu aqui a Nossa Senhora e vamos ter que construir aqui um santuário.”
“Oh. Mas que chatice. Mas porque raio não apareceu Ela em Fátima? Lá é que há bons terrenos para santuários. Aqui, pelo tipo de terreno, é mais coisa de segundo aeroporto.”
Mas esta é uma questão pertinente. Porque foi ela aparecer em Fátima? Logo em Fátima.
Há tanta localidade em Portugal, porquê logo em Fátima?
Ela foi esperta. Ora pois. Fosse lá ela aparecer um pouco mais ao lado, no concelho de Ourém e não teria sido ela chamada Nossa Senhora dos Currais!
Ou teve muita sorte ou foi muito esperta. É que com a quantidade de nomes de localidades que temos, Nossa Senhor teve mesmo muita sorte ter aparecido onde apareceu, ou não fosse ela chamar-se:

Nossa Senhora da Picha (Pedrogão Grande);
Nossa Senhora da Vendas das Raparigas (Alcobaça);
Nossa Senhora d’A-da-Gorda (Óbidos);
Nossa Senhora de Lavacolhos (Fundão);
Nossa Senhora de Picheleiros (Setúbal);
Nossa Senhora de Espelgases (Odemira);
Nossa Senhora da Coina (Barreiro);
Nossa Senhora de Nariz (Aveiro);
Nossa Senhora do Casal do Pinhal (Sintra);
Nossa Senhora de Toca do Rabo (Vila do Bispo);
Nossa Senhora do Rablongo (Idanha-a-Nova);
Nossa Senhora do Rabito (Guarda);
Nossa Senhora do Rabinho (Fundão novamente);
Nossa Senhora de Rabadela (Vila Nova de Famalicão);
Nossa Senhora de Entrabum (Monchique);
Nossa Senhora de Lamama (Paredes de Coura);
Nossa Senhora do Moinho da Mama (Arraiolos);
Nossa Senhora da Palhaça (Oliveira de Bairro);
Nossa Senhora de Engano (Odemira novamente);
Nossa Senhora de Ranholas (Sintra novamente);

As possibilidades são inúmeras. Agora tentem ver como é que ficavam essas localidades se tivessem “Santuário” escrito à frente. É o que vos digo. Foi um milagre, sim senhor. Foi um milagre Ela ter aparecido em Fátima.

Voltem sempre. Desculpem o incómodo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Carne velha, precisa-se!

A todos aqueles que preocupados pensaram que O Talho tinha fechado, despreocupem-se porque não fechou.
São incontáveis os e-mails que recebi de leitores assíduos e interessados na situação deste estabelecimento.
Ora, são incontavéis, pois claro, porque não recebi nenhum. Nem um! Zero! Nicles! E uma pessoa não pode contar coisas que não existem. Lá fiquei eu à espera de comentários às últimas adições de febra, mas nem essas tiveram sequer uma palavrinha. Tudo bem. Era carne fraca. Mas nem sempre se consegue ter um porco categoria A.
É como aquele pessoal que não vai para a cama com uma mulher que tem uma cara feia. Ó amigos, por alguma razão Deus Nosso Senhor deu umas costas bonitas às mulheres e por uma razão equivalente Adão e Eva inventaram a “Canzana”. Por outras razões completamente diferentes uma senhora de Semide (Miranda do Corvo) inventou a “Chanfana”. Longe vão os agrestes tempos da ditadura onde a “Canzana” voltou a ter conotação gastronómica. A escassez de cabra velha levou muita gente a recorrer à carne de cadela velha. Mesmo a batata foi substituída por barro...isto quando havia barro.
Mas divago. Dizem que anda aí um novo papão. A ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica). E dizem desse papão que é mau e que fecha estabelecimentos comerciais caso sejam encontradas provas de desrespeito às normas da dita Segurança Alimentar. Ora...como será que estes senhores avaliam então uma “Chanfana”? É que para se fazer uma boa “Chanfana” a carne tem que ser de cabra velha, mesmo velha, quase a quinar. Mas acho que carne velha, mesmo velha, não deve cumprir as normas de Segurança Alimentar. Então como é que estes senhores lidam com este paradoxo?
Se me entram no talho e dizem com as suas vozes anasaladas:
“O Sr. Alfredo é que é o dono deste estabelecimento?”
“’Tá lá fora um letreiro a dizer “Talho Alfredo”, eu chamo-me Alfredo e tenho uma bata de talhante vestida...Não! Não sou. Sou o Alberto Barbeiro e enganei-me na loja.”
“Mas é ou não é?”
“Mas é claro que sou, pá. É preciso explicar tudo?”
“Nós somos representantes da ASAE e queremos verificar se a carne que vende no seu talho está a cumprir as normas de Segurança Alimentar.”
“Eu julgo que está. Olhe para ela no expositor...Está morta! Não se mexe. E quando veio na carrinha também já vinha morta e pendurada. Epá. Não me diga que agora também é preciso ter uma cadeirinha especial para transportar carne... É que se assim for eu não recebi a circular e olhe que eu recebo todos os meses o “Butcher’s Digest”.”
“Sr. Alberto...”
“Alfredo.”
“Sr. Alfredo...olhe que isto é sério. Parece que tem aqui carne muito velha.”
“Claro que tenho. É carne para Chanfana. Chanfana é feita com carne velha, mesmo velha, quase a quinar.”
“Mas de cabra, Sr. Alfredo.”
“Ai! Então mas a ASAE é perita em Chanfanas? Agora vai-me dizer que não posso fazer uma Chanfana de porco...ou de vaca...ou de perú...ou de galinha.”
“Tem razão, sim senhor. Vamos deixa-lo em paz e vamos à pastelaria ali ao lado para contar se os Mil-folhas cumprem aquilo pelo qual são nomeados. Muito boa tarde.”
“Boa tarde.”

Seria mais ou menos isto. Um talho imaculado como o meu só poderia passar na aprovação da ASAE. Logo, só é papão quando um é descuidado com aquilo que têm ou faz. É como a PIDE. Antes o papão era a PIDE. Todos tinham medo da PIDE e ao fim e ao cabo eles só estavam a cumprir o trabalho deles. Existiam normas. Se não eram cumpridas, claro que eles tinham que intervir. A ASAE é a mesma coisa. Eles são boas pessoas com vozes anasaladas que estão para fazer cumprir as regras. Sem eles andava aí muita gente a comer “Chanfana” com carne de cabrito, muito novo, tenrinho, ou seja, a ser enganado e sem saber.

Os melhores cumprimentos.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Um porco a andar de bicicleta??

Bah!

Isso não é nada comparado com uma costoleta e duas coxas de frango a dançar num pódio.

Ele há coisas...


terça-feira, 26 de junho de 2007

É comprido mas vale a pena, disse-me ela a mim.

Já tinha saudades disto. Eis que volto de novo com nada de jeito para dizer.

Para já, os meus caros leitores, merecem uma explicação de meu tão demorado hiato literário. Passo a explicar. Andaram aí umas insinuações feitas por pessoas que não sabem fazer mais nada senão meter-se na vida dos outros de que eu, Sr. Alfredo do Talho afinal não tinha a minha licenciatura em CTA (Ciências Talhantes Aplicadas).

Pessoas que lançam estas insinuações como quem lança posta de pescada são nada mais que isso...pessoas que lançam postas de pescada, e quem lança postas de pescada lá vai alguma vez perceber da tão complicada ciência que é o Talhanço Aplicado? Ou ter sequer noções de Gestão Carnal? Ou conhecer algo que seja de História dos Talhos? Tudo bem que demorei a receber a nota de Contalhibilidade Empresarial e o meu trabalho de Talho Técnico foi apenas uma página, mas era um dos melhores trabalhos daquela aula. “Less is more” como se costuma dizer.

Más línguas disseram que afinal eu não estava num hiato, que andava era num iate, porque tinha ganho o Eurotrilhões e não tinha avisado ninguém. Antes fosse. Outros disseram que tinha sido raptado e que segundo fontes externas tinha sido visto em três cidades diferentes de Marrocos...à mesma hora. Houve quem dissesse que estava envolvido num caso que se vem a prolongar e que já tomou proporções colossais que é o Caso Talho Dourado. Corrupção nos Talhos portugueses? Mas onde é que isso já se viu? O que é que vão atacar a seguir? O futebol, não?

Aconteceu muita coisa na minha ausência mas o que lá vai, lá vai. Vou-me concentrar na minha “presência” porque para trás urina o asinino fêmea.

Cheguei a uma conclusão. Isto já me vinha a moer o juízo há algum tempo, porque eu dizia sempre “Como é que é possível?” com um discurso exasperado de desacreditação, de cada vez que via, lia ou ouvia algo sobre este país. Os Estados Unidos da América. Muito a sério. Como é que é possível?

“Mas como é que é possível o quê, Sr. Dr. Prof. Eng. Sr. Alfredo?” perguntarão vocês e bem.

Como é que é possível eles serem assim...sei lá...assim como...como eles são...parece tudo...como hei-de dizer...parece coisa de filmes...as ideias que eles têm...os actos que cometem...o Presidente deles...é tudo tão...tão fantochado.

E foi aí que eu juntei o A mais o B e deu AB o que é absolutamente nada. AB não é nada. Pelo menos em maiúsculas. Pode até querer dizer muita coisa, pode ser uma sigla, mas assim a sangue frio não é nada. AB... ok...pode ser “ave” dita com sotaque do Norte, mas mesmo assim é estúpido.

Adiante, juntei eu umas quantas ideias e apercebi-me da verdade absoluta. Os Estados Unidos da América não passam do maior Reality Show alguma vez criado. Muito a sério. Não estou a dar tanga. É como aquele filme, “The Truman Show” só que se passa num continente inteiro. Aliás, os gajos até são engraçados porque depois até fazem filmes como o “The Truman Show” sem eles próprios saberem que são um Reality Show.

“Mas Sr. Dr. Prof. Eng. Sr. Alfredo Ph. D., como chegou a essa brilhante conclusão já por si digna dum prémio Nobel, que é uma espécie de um Oscar mas dos marrões?”

Foi simples. Ora bem. Conquistadores. Colombo. Américo Vespúcio. Magalhães. Zézé Camarinha. Não interessa. Eles foram, viram e desenharam mapas. Encontraram terreno, apalparam terreno. Encontraram nativos, apalparam nativas (e alguns nativos). O sítio era fixe. Alguns ficaram. Até aí tudo bem.

Anos passaram.

Voltemos ao Velho Continente...por volta dos séculos 16 e 17...Velho Continente... talvez Adolescente Continente. Aos 16 e 17 é-se adolescente.

Na Inglaterra andavam lá umas confusões e tal, coisas chatas, pessoal sem sal que andava a ser chagado por pessoal ensosso o que levou a esses sem sal mudar-se para a Holanda. Algum tempo depois, com medo de perder a sua identidade cultural sem sal, pediram a uns investidores Ingleses “Ó por favor, mandem-nos pro continente americano” para lá estabelecerem uma colónia. Ok. Estamos a falar de pessoal que estava na Holanda, países nórdicos. Eu já chego lá. Caaaaaaaaalma.

Eles lá foram, num barquinho para o continente americano, os chamados Peregrinos. E quem lá ia no meio deles? Quem? Nem mais nem menos que um produtor da Endemol. Já me estão a perceber?? Ah pois é!! E foi aqui que tudo começou. Eles foram para lá e começaram a criação do maior Reality Show de sempre. No barco ia lá de tudo. Escritores, operadores de câmara, engenheiros de som, guionistas...todos aqueles necessários para fazer um programa destes. E tem durado até agora. Cada vez mais escalabroso. Por isso vos digo, caros e fiéis leitores. Os EUA não são mais que um grande Reality Show. Só desta forma consigo perceber a razão para aquele povo ter como presidente o Sr. George W. Bush. Ele não é mais que o típico personagem de comic relief que todos os Reality Shows têm.

Eles andam aí.

terça-feira, 27 de março de 2007

Sou vegetariano, Sr. Salazar

E pronto. O melhor português é sem dúvida o Salazar. Quem o defendeu tinha razão. Quem esteve contra também teve razão. Quem nem aqueceu ou arrefeceu com o resultado também tinha razão. Quem naquele momento esteve a ver a novela também tinha razão.

Mas não deixa de ser esquisito. Eu não tenho nada contra o homem, mas ele foi um ditador. Ora, dessa fama ninguém o livra. Quando se fizer o concurso “Os Grandes Judeus”, eu estou a ver a Anne Frank a levar uma abada de pontos do Hitler, porque há aí umas teorias manhosas que afirmam que ele era judeu. Hitler ganha na boa. Ora…Salazar não matou nenhum Português. Pelo menos pessoalmente. O Hitler também não matou nenhum judeu. Pelos menos pessoalmente. Logo eu vejo que a vitória do primeiro é tão válida como a do segundo, isto nos seus respectivos concursos.

Antevejo, tal como Bandarra, o Sapateiro Profeta Cantor, os próximos concursos e seus resultados finais:

Os Grandes Chilenos: Vencedor : Augusto Pinochet

Os Grandes Italianos: Vencedor: Benito Mussolini

Os Grandes Chineses: Vencedor: Mao Zedong

Os Grandes Cubanos: Vencedor: Fidel Castro

Os Grandes Espanhóis: Vencedor: Francisco Franco

E por ai em diante…

Mas não deixo de estar indignado com este género de votação. Os concorrentes não suaram uma gota. Tudo bem. Alguns já morreram, vá, a maior parte. Mas mesmo assim. Por telefone? Podiam ter feito um espectáculo tipo Festival da Canção dos Grandes Portugueses, ou então visto que alguns podiam não saber cantar faziam um Aqui Há Talento Nestes Grandes Portugueses. Salazar fazia sapateado no parquet, Álvaro Cunhal fazia malabarismos com fogo, Afonso Henriques fazia uma justa contra um Mouro, Fernando Pessoa fazia umas graçolas tipo Charles Chaplin, sei lá. Assim umas coisas mais animadas que levasse os candidatos a mostrarem alguma coisa ao público.

Sim. Tudo bem. Alguns estão mortos e ressuscitá-los seria complicado. Eu entendo. Mas seria giro. Mas aquilo foi tudo muito cinzento. E a Maria Elisa bem tentou animar aquilo com umas graçolas emprestadas do colega Malato, mas sem grande resultado.

Ora, o Malato. O Malato é que apresentava aquilo que seria uma maravilha.

“AH AH AH. Prisão de Peniche…já fui muito feliz na Prisão de Peniche.” Ao bom jeito do Malato.

A RTP não teve aquele “je ne sais quoi” que a TVI teve com a “Gala das 7 Maravilhas”.
Contratavam o Filipe La Féria e ele fazia ali um espectáculo espectacular, com a Wanda Stuart vestida de Marquês de Pombal a dançar num cenário todo mecânico representativo da reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755, enquanto cantava uma versão “É P’ra Amanhã” do António Variações.

Havia tanto potencial naquele programa que foi desaproveitado. Mas já está, já está. Lá ganhou o Salazar. Há que ter a mente aberta para tudo. Eu não acho estranho um Ditador ganhar um concurso, tal como não acho estranho um talhante ser vegetariano. É completamente normal. Sou a favor das duas coisas.

Volto já.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Publicidade agressiva é boa publicidade

Recolhi hoje do limpa-pára-brisas mais um flyer informativo. Este género de publicidade não é lá muito agradável ao seu alvo.

Para já assustam logo uma pessoa. Assim que entramos no carro vislumbramos um papel no limpa-pára-brisas e a depressão instala-se. Eu pensei logo “Mais uma multa?” mas depois verifiquei que era apenas uma publicidade. O meu coração descansou e a minha carteira suspirou de alívio.

Assim que estacionei a carrinha frigorífica à porta do Talho retirei o flyer. Era mais colorido que o último, logo chamou mais à atenção. O apelo visual é muito importante. Era uma publicidade a uma conferência pública sobre Autoconhecimento, o que por si já é bastante lógico por aparecer no limpa-pára-brisas da minha viatura automóvel.

É, hoje em dia, muito importante, o Autoconhecimento.

Porquê, Sr. Alfredo?

Ora, porque nunca sabemos quando é que a nossa viatura automóvel vai ter um problema e se tivermos um mínimo de Autoconhecimento pode ser que até nos desenvencilhemos da situação.

O motor faz barulhos esquisitos? Usando o Autoconhecimento identificamos a origem.

Os discos dos travões chiam? Com Autoconhecimento sabemos que precisamos de mudar as pastilhas.

Aparece uma luz estranha no painel? Sabemos logo qual o problema porque temos Autoconhecimento.

Tudo bem. Eu se quisesse ser mecânico tinha estudo na Universidade de Mecânica, mas optei pelo curso superior de Talho Aplicado. São opções. Mas um mecânico também é senhor de ter Carneconhecimento assim como eu tenho Autoconhecimento. Um mecânico sabe como cortar um pedaço de pá de porco e um entrecosto. Nos na vida temos de ser pluridisciplinares. Mas os mecânicos optam por fazer mais publicidade. Tudo bem. Não me ofende de maneira alguma. Mas de certo modo começo a desconfiar que é por causa destas palestras de Autoconhecimento que os carros demoram tanto tempo a ser arranjados.

“Ah. Isto é só mudar a correia de distribuição mas vai ter que ficar cá dois dias ou três porque entretanto ainda tenho aí outros serviços primeiro.” Pois. Esses serviços devem ser estas palestras de Autoconhecimento. Bem que as podiam guardar para outra altura.

A mim quando me encomendam 2 quilos de bifanas, 1 quilo de costeleta do cachaço e meio quilo de carne picada de mistura não digo à clientela: “Ah, tudo bem, mas entrego-lhe isso dentro de dois ou três dias porque tenho aí outros serviços primeiro.”, querendo dizer com “outros serviços” uma palestra de Carneconhecimento.

Outros flyers que vão aparecendo são de senhores que se denominam Mestres de isto e daquilo, ou então Professores. Mas agora acho que com a polémica da opinião pública sobre os Professores têm todos mudado para Mestres…que é Professor, mas à antiga.

Mas não se pode confundir um Mestre que dá consultas de Reiki com um Mestre que faz rezas para retirar o mau olhado. Não dá, sequer, para confundir.

Porquê, Sr. Alfredo?

Eu explico, mas já estás a ser um bocado chato com tanto “porquê”.

É uma questão de nome artístico. O Mestre das rezas e feitiçarias (eu sei que dizer “feitiçaria” é redutor, mas se quisesse ser redutor mesmo tinha usado bruxaria) usa um nome, vá, engraçado, que apela imediatamente a quem lê. Mestre Djapum, Mestre Mákoka, Mestre Karaçaspá. Nomes que levam ao místico africano, ao shaman do Shaka Zulu. Uma pessoa pensa logo que o Mestre é um indivíduo de cor (digo de cor, por ser o politicamente correcto, porque como diz um compincha meu, julgo que o Sousa, preto é ausência de cor, logo é errado dizer que é um indivíduo de cor. Mas outro colega, julgo que o Pereira, constatou e constatou muito bem que saudosos eram os tempos em que se podia chamar preto a um preto e ninguém se ofendia, tal como na publicidade do restaurador Olex. “Um preto de carapinha loira...” Abel Xavier é um caso à parte porque acho que o homem faz aquilo de propósito para ser gozado.) mas o nome pode ser um engano e o Mestre Kibunda, quando se vai verificar, é branco e o seu verdadeiro nome é Tiago Lopes.

Agora o Mestre do Reiki usa nomes sofisticados como Bernardo Costa ou Pedro Vasconcelos ou Frederico Soares, que quando vamos verificar são meros nomes artísticos de indivíduos que na realidade se chamam Déricleide ou Ricardentil ou Saboá Mué.


Até mais ver

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

O dia em que Portugal cismou

Estava eu muito bem a cortar um entrecosto aos pedaços, quando o Pedrito da padaria “O Forno” (que tem o cartaz vandalizado pela garotagem e alterado para "O Porno"...estes garotos!) entrou-me pelo talho adentro e disse qualquer coisa que a princípio me soou logo estranho, isto porque o rapaz é cicioso. É difícil transcrever correctamente aquilo que o rapaz disse em escrita ou sequer foneticamente, mas posso tentar. É que para além do ciciar do rapaz ele também estava ofegante e assustado.

Não é que a padaria seja longe do talho, porque não é. Mas estamos separados por uma Nacional muito transitada e a passadeira mais próxima fica na vila mais próxima. Daí o rapaz arriscar-se a atravessar a estrada de cada vez que quer falar comigo.

Mas faz-lhe bem. Ele é jovem e visto que o dinheiro não dá para mais, esta é uma modalidade radical que lhe custa pouco. E também o ajuda no seu problema de peso. Nada como uma corrida à frente dum camião TIR para ganhar uma dose de adrenalina e perder uns quilinhos a mais. E o risco de ser atropelado, estará o leitor a perguntar (sim, porque só tu é que estás a ler isto, Pedrito, mais ninguém…e vê se largas o computador do teu primo que ele quer fazer os trabalhos da escola).

Pergunta muito bem. Não há qualquer problema para o Pedrito. Há sim é para as viaturas. O Pedrito é robusto (leia-se gordo) e se levar uma panada dum carro é o carro que fica a perder. O Pedrito, digamos, é quase um javali. E aqueles dentes enrolados também não ajudam muito a disfarçar. Os dentes enrolados são também a principal causa do impedimento de fala que ele tem. A maior tristeza dele é não poder ir à caça. Atravessar a Nacional super-transitada é uma coisa, agora arriscar-se a levar um balázio quando confundido com um javali já é mais grave.

Pois…e que raio é que o rapaz disse? Vamos lá ver se consigo transmitir por escrita. Aqui vai:

Ó Thô Alfêdo! Thô Alfêdo! Dá viu ithto? Não thentiu natha? Tava eu thothegatho lá na patharia e não é que cométha tutho a thremer. Era ver oth papothecos a cair pó thão, oth thenteioth a ethcorregar dath prateleirath. Thepoith ouvi na telefonia, uma interrupthão no programa do Thenhor Thérthio Athith, a dither que tinha thitho um thithne!! Eu dá tinha thito ao meu pai que o thithne é um doth patoth maith parigóthoth. Aintha é pior que oth gatoth. Não the confetha. É um bitho que volta e meia the pode virar contra o theres humanoth, tipo o homem e afinth. Na ráthio thitheram que tinha praí thinco quiloth e theithentas…thevia ther cá um boi, ó Thô Alfêdo. Thitha!!!

Agora imaginem isto ao dobro da velocidade e com o rapaz ofegante da corrida que tinha dado para se desviar de dois camiões TIR, um Clio, uma Pick up, um Corsa e o Aixam do Compadre Zé Fréches que se põe a acelerar naquilo como se não houvesse amanhã e sempre bêbado. O Pedrito não a tinha fácil.

Traduzindo o que o rapaz queria dizer:

Ó Sr. Alfredo! Sr. Alfredo! Já viu isto? Não sentiu nada? Estava eu sossegado lá na padaria e não é que começa tudo a tremer. Era ver os papo-secos a cair para o chão, os centeios a escorregar das prateleiras. Depois ouvi na telefonia, uma interrupção no programa do Sr. Sérgio Assis, a dizer que tinha sido um cisne!! Eu já tinha dito ao meu pai que o cisne é um dos patos mais perigosos. Ainda é pior que os gatos. Não se confessa. É um bicho que volta e meia se pode virar contra os seres humanos, tipo o homem e afins. Na rádio disseram que tinha para aí cinco quilos e seiscentas…devia ser cá um boi, ó Sr. Sr. Alfredo. Xiça!

Levou logo um calduço. Ora, o mariola do rapaz a dizer que eu devia ser um boi! Já não há respeito. Boi é ele! Boi, burro e javali! É que ainda por cima queria enganar-me.

Vim depois a saber que não tinha sido cisne nenhum, mas sim um sismo. E depois expliquei-lhe ontem e ele nada! É que é mesmo bruto. Disse que eu é que andava a “sismar”. Levou mais um calduço! Anda-me a perder o medo! Estou a ver que ainda tenho que fazer uma queixa ou outra ao pai dele.

Cisne, sismo ou cisma, o certo é que Portugal tremeu um bocadinho. Devia ter muita água no capote.

Até à vista.